Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Ante-estreia (2) - João Lencastre

 

 

...no fundo, pouco falámos sobre o que tocar...

 

 

One!

(Fresh Sound New Talent / Dwitza)

1. Lonely Woman; 2. Communion I; 3. Byrdlike; 4. Communion II; 5. Summertime; 6. Communion III; 7. New World; 8. 108

 

João Lencastre' s Communion

João Lencastre (bateria); Bill Carrothers (piano); Phil Grenadier (trompete), Demian Cabaud (contrabaixo); André Matos (guitarra)

 

Gravação: Hot Clube de Portugal e Estúdios Namouche, entre 27 e 30 de Julho de 2006

 

 

Não sei se costumam fazer como eu, quando se confrontam com um disco novo: cá por mim, costumo colocá-lo logo no leitor de CDs e «pico» os momentos iniciais de cada faixa, para ficar com uma primeira ideia sobre o que me espera. Depois, mais tarde, quando há tempo para vagares -  e mesmo que essas primeiras impressões não tenham sido de imediato prometedoras  - volto a pegar no disco, recosto-me para trás, ponho os auscultadores e ouço-o de ponta a ponta, quase nunca resistindo a tomar logo algumas notas, para o caso de virem a ser necessárias e ter-me esquecido de qualquer coisa.

Foi o que aconteceu, mais uma vez, ao confrontar-me com este primeiro CD de João Lencastre (1) que deve estar, neste momento, a chegar às lojas. Passada a primeira prova e aguçado o apetite para degustar um disco que sem dúvida merecia a calma necessária, fui à vida que já se fazia tarde e regressei hoje à sua audição integral, agora vertendo em letra de forma as minhas impressões, porventura mais fundamentadas, sobre este singular e peculiar One!

Desde logo, ao ouvir toda a música publicada no CD e ao ler algumas palavras que João Lencastre escreveu para introduzi-lo ao público, a primeira coisa que me apeteceu foi citar (dessas palavras) aquelas que constituem o título da presente crónica. Isto porque elas encerram, a meu ver, o próprio conceito do disco, ou seja: não ter propriamente, à partida, um conceito pré-determinado, antes que os músicos cheguem ao estrado e a primeira nota seja tocada.

(ouvem-se alguns raspares de garganta)

Calma, pessoal! Claro que há aqui um pouco de devaneio: raramente as coisas são mesmo assim! Mas apesar de tudo, se escrevi o que acabei de escrever, é porque, lá no fundo, no fundo, a música que se ouve ao longo de One!, a par de momentos de franca convergência resultante da capacidade de saber ouvir o Outro, deixa transparecer algumas fragilidades e desencontros que naturalmente têm origem numa custosa e nem sempre resolvida busca de identidade entre parceiros que procuram musicalmente conhecer-se em tempo real. Acontece que é este, contraditoriamente, um dos aspectos mais simpáticos deste disco, pela genuinidade que transparece dessa aturada procura, já que há aqui toda a aparência de que (quase) nada nos foi escondido.

Porquê este quase, assim insinuado entre parêntesis?

Bom... porque para além de não se saber bem quais foram as peças gravadas no Hot ou em estúdio, dado que parece haver uma preocupação obsessiva em cortar os aplausos no final das mesmas (?!), há ainda, quanto a mim, um outro relativo mistério: a existência de três faixas, todas elas intituladas Communion (afinal o nome do quinteto de João Lencastre), que parece resultarem de momentos de improvisação colectiva (daí a autoria repartida) mas dos quais apenas nos terão sido dadas a ouvir as passagens quiçá mais bem conseguidas.

Sendo certo que não faltam exemplos de discos em que tal acontece, o facto é que, à excepção de Communion I (que entra em fade in e sai em fade out, mas tem uma certa coerência interna), as restantes Communion II e III, também entrando em fade in, constituem, se bem as escuto, transições ou introduções livres, mais ou menos longas, para Summertime e New World, não se percebendo porque lhes é atribuída identidade própria, que aos meus ouvidos realmente não têm. Ao contrário do que acontece, por exemplo, com 108, que encerra o disco, uma outra peça afinal também nascida da improvisação colectiva.

Mas isto sou eu a pensar em voz alta, sendo sem dúvida mais importante abandonar estas perplexidades e ater-me ao que de positivo o disco nos apresenta.

E não é pouco!

 

 

Em primeiro lugar, o simples facto de João Lencastre ter conseguido reunir à sua volta (para além dos instrumentistas que costumam formar os seus grupos) os contributos de músicos norte-americanos de peso, como Phil Grenadier e, sobretudo, Bill Carrothers, é um sintoma de aceitação já conquistada na comunidade jazzística além-fronteiras e constitui, em geral, mais uma prova da natural confiança e maturidade do nosso jazz.

Depois, a sua própria intervenção musical no disco resulta apropriada e eloquente, sabendo furtar-se a protagonismos demasiado tonitruantes e remetendo-se (mesmo enquanto líder) a uma sensatez e a um recato compatíveis com o desenrolar da própria música que se vai fazendo (um pouco ao invés de intervenções que lhe ouvi em outras ocasiões), swingando por vezes de uma forma leve e solta, como em Communion I

Neste contexto, o modo como João Lencastre consegue, em certos momentos de Byrdlike, ultrapassar (e mesmo contrariar) uma persistente «marcação a dois» na qual Demian Cabaud aposta demasiado tempo (quando tudo e todos puxavam para que uma natural «marcação a quatro» enfim explodisse!) acaba por ultrapassar, com convicção, um certo incómodo físico que por momentos aflora nesta peça.

André Matos, na guitarra, não tem grandes oportunidades para se fazer ouvir no conjunto da música que o CD nos revela; mas demonstra um excelente ouvido harmónico quando se trata de seguir estruturas definidas e, ao mesmo tempo, sabe afastar-se destas nos momentos de maior transgressão aleatória, como sucede na sua escorreita improvisação (a um tempo clássica e heterodoxa) em Byrdlike.

Quanto aos dois convidados estrangeiros, Phil Grenadier, mesmo mostrando uma cultura instrumental na tradição clássico-moderna, sabe evocar um Don Cherry quando tal é apropriado - como na reexposição final de Lonely Woman - e enverada com apropósito pelo politonalismo, ao utilizar mentalmente (mais uma vez em Byrdlike) a deslocação dos acordes para tonalidades paralelas ou optando pelo fraseado em tons inteiros, a melhor forma de «escapar» aos centros tonais muito definidos.

Mas é sem dúvida Bill Carrothers que se afirma em todo o disco com a notável capacidade criativa que lhe conhecemos. Desde a introdução em ambiente impressionista que acaba por marcar a misteriosa abertura de Lonely Woman, até à transfiguração e deriva harmónica (para tons afastados) que aplica ao conhecido clássico de Ornette Coleman, Carrothers inicia um percurso de invenção que só se esgota nos últimos momentos de 108, passando pela multiplicidade de ideias que jorram (e mais uma vez determinam) as reviravoltas de Byrdlike, pelo pianismo sombrio de Communion II, pelas harnonias modificadas para Summertime ou pela impensável citação de Dixie (!) numa lenta e episódica sequência de acordes que faz imiscuir em New World.

Enfim, um primeiro disco com momentos de maior ou menor acerto mas que, sobretudo, patenteia a coragem na recusa do óbvio e do antecipadamente garantido, antes apostando na aventura e no risco do que é incerto.


 

(1) João Lendastre tem 28 anos e toca bateria desde os 13. Foi aluno de Bruno Pedroso e Carlos Vieira na Escola do HCP. Em 2002 estudou com Ralph Peterson em Nova Iorque. Outros professores foram: Ari Hoenig, Billy Kilson e Dan Weiss. No seu currículo incluem-se digressões e participações em disco com Jacinta, André Fernandes, Carlos Martins, Mário Franco ou David Binney.


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 17:46
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